Minha primeira vez

por Lisângelo
Era um tempo de guerra civil. E nesse mundo sempre havia uma guerra.
Mas eu não sabia, tudo era muito distante no final da década de 70 aqui no Brasil. Tudo o que eu conhecia vinha da televisão e não falo das notícias espremidas entre uma novela e outra, falo dos filmes e seriados que passavam nas sessões da tarde. A grande maioria produções das décadas de 50 e 60. Os filmes eram divertidos, o chato é que o pessoal de mais idade já sabia de antemão tudo o que ia acontecer. Como era possível saberem que o Jerry Lewis ia cair no chão e quebrar a cara se era a primeira vez que eu via aquele filme?
Melhor era acompanhar Jornada nas Estrelas. Em casa, eu era um dos poucos que apreciava ficção científica então não havia estraga prazeres ao lado. Além disso Jornada tinha efeitos especiais, naves e alienígenas. Quando anunciaram um filme com um título parecido que estrearia nos cinemas, eu não quis perder a oportunidade.
E lá estava eu, no escuro da sala de exibição aguardando o começo do filme. Começou bem, com a fanfarra da Fox, a mesma música dos filmes divertidos que eu vi lá do sofá da sala, só que no cinema o som era bem melhor. Tudo escurece novamente e uma frase misteriosa, em letras azuis, explica que a história se passa há muito tempo atrás exatamente como naqueles contos de fadas. "Como assim? Não era pra ser ficção científica? Ficção não se passa no futuro?" Pensando nisso, nem reparei que as reticências tinham quatro pontos.
E então.... O acorde inicial daquela música. Foi o Big Bang para mim! O ingresso já estava pago só de ouvir John Williams comandando a orquestra, particularmente a pomposa e heróica seção de metais. O texto em amarelo falava de uma trama que não entendi bem entretanto a câmera logo se desloca e surgem as naves. Na primeira cena são disparados mais tiros de laser do que em vários episódios de TV juntos. E as espaçonaves são bem detalhadas, a superfície coberta com canhões e outras coisas que não sabia identificar mas que pareciam ter uma função. Analisando depois, percebi que realmente uma espaçonave não precisa ter uma superfície lisa e aerodinâmica já que no espaço exterior não há atmosfera nem atrito. Ponto pra Star Wars. A essa altura meu queixo estava caído, e eu não fecharia a boca até o final. A história apresentava elementos consagrados, que todo mundo consegue reconhecer. Não era necessário indicar quem era o vilão, já que no momento em que ele pisa na nave rebelde está claro que é o mal encarnado usando capa e capacete. O mocinho veste branco, é orientado por um sábio mestre de quem recebe uma espada encantada e parte para salvar a princesa. Contudo certos elementos apresentaram-se novos: a heroína tinha personalidade sabendo empunhar uma arma e os efeitos eram de tirar o fôlego. Aprendi que um sistema solar podia ter dois sóis em uma cena imediatamente clássica. Juro que só percebi as inconsistências da trama mais de uma década depois, tamanho foi o impacto.
Saí feliz do cinema. Eu estava mudado e minha expectativas em relação ao próximos filmes que assistiria eram grandes. A indústria do cinema ia ter que se mexer para me agradar. Porém o motivo maior da minha felicidade era que lá em casa, ninguém ia me contar o final.
A novidade agora era minha.

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